A A HISTÓRIA DO TÓNIO, EM LORIGUÊS PARTE I
Foi-se o respigo de luz da lamparina do púcaro barro, de asas esbreiceladas que pendia do desvão, preso com duas travincas e um baraço roubado do molho de carqueijas.
O céu de inverno rapidamente escureceu, engrossando a barduça, e logo começaram uns pinguitos de chuva, que depressa se tornaram numa bátega, como se todos os cântaros da fonte se despejassem de uma vez só no zinco velho e amolancado da palheira.
Até o cachorro, que dormia amorcegado na escaleira, acordou estremunhado e correu ao calhas pelo lapacheiro, embaraçando-se num chapéu aforricado trazido pelo vento desde a quelha da formiga, ficando ali, virado como um cachipon cheio de em silvas e carumas.
O Tónio espreitou do palanquim, hasteando um rendízio ferrugento numa das mãos, ao mesmo tempo que arremedava e bachicava a irmã, tentando acertar com a gancha nas beirolas que caíam do caleiro.
— Anda cá, filho de uma égua! Que te estás a ensopar todo… — gritou a avó, numa veneta, escanchada na braseira, expurgando batatas, e coçando as pernas cheias de chouriças, com as mãos escairadas pela invernia.
O pai do Tónio levantou a voz lá do canto enquanto lhe lançava um olhar de teirão..
— Vem cá, cachorro, que já te dou o arroz! — acrescentou, gesticulando com grande cramunha assentado, descontraído, sobre a taleiga da farinha, ocupado a pregar duas brochazinhas nas tamancas da sogra.
O pirralho, assustado, correu desastrado, deu uma topetada na pedra da lareira e caiu em carvalhó , ficando esmangualado nas rachas, derrubando a panela de trempas, que lhe caiu nas trombas e o deixou todo esmoucado.
A mãe, até então amerzundada na cozinha à espera que as calhorras ferversem, correu para o Toino, receando que lhe desse o fanico. Pegou nele às andrilhas, embalando-o enquanto cantava ao som dos trovões: “Bendito e louvado seja…”
— Que foi, mê filho? — perguntou, com a voz envolta em cuidado.
— Bem feito! Quem te mandou saíres daqui?
E continuou cantando…
- O santíssimo sacramento…
Não estavas bem cá dentro?
-Da eucaristia…
autor- José Manuel Alves.H
MUSICA - FOTOGRAFIA - POESIA * Fotografia em: http://josalvespt.podiumfoto.com/ * www.olhares.com/josalvespt
segunda-feira, 29 de dezembro de 2025
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