quarta-feira, 18 de julho de 2018

ONDAS ESPIRRADAS





AS ONDAS, UMA A UMA
As ondas, uma a uma
Como novelos de espuma
Desfazem-se como algodão
Na minha mão.

Um canto molhado e doce
Quem as criou?
Quem as trouxe?
Quem lhes incutiu aquele arrastar lamentoso
Numa dança de agonia enrouquecida
Como poetas famintos
Surfando labirintos de inconfidências
Em versículos descoloridos.

Lentamente, uma a Uma
Com a paciência de quem é dono da eternidade
Com a maciez da sumaúma
Num gesto de poder e de vaidade
Vestem as rochas de espuma
E afogam-nas sem piedade
 


Ah! Este mar! Este deserto
Estes cânticos de sereias a rezar
Este feitiço de o olhar de longe ou perto
Augúrios de pescadores a estrebuchar
Perdidos na imensidão deste deserto
Mãos erguidas, vidas a definhar.

São assim as ondas
Uma a uma
Vestidas de rendas e de espuma
Que se desfaz como o doce algodão
Entre os dedos da minha mão.
Quem as criou?
Quem as trouxe?


Autor: José Manuel Alves

sábado, 7 de julho de 2018

sábado, 4 de fevereiro de 2017

Loriga -Fontenário




A FONTE

Ficaria de bom grado
Horas perdidas a olhá-la e a pensar…
Quantas gerações ali pararam
Quantos cântaros se encheram
Quantas vozes se ouviram
Quantas brincadeiras ocorreram em seu redor.

Ainda oiço a algazarra da matança do porco
O cheiro a pelos queimados
A correria dos miúdos
Enfeitiçados pela euforia
Na disputa de quem chegaria mais perto.

Pairam no ar os lamentos
De quem se arrastava rua acima
Entorpecido pelo frio e pela idade.

A água continua ali
Caindo sem cessar
Cantando indiferente a quem passa
Como uma donzela transbordando de frescura.

Ficaria de bom grado horas perdidas a escutá-la
De olhos fechados e um sorriso rasgado
Ali onde começa o passado cada vez mais longe.

Autor: José Manuel Alves