segunda-feira, 29 de dezembro de 2025

 

A HISTÓRIA do TOINO EM LORIGUÊS      PARTE  II 

 

O Tonio cresceu. Era agora um rapaz bonito e escorreito, livre das bostelas que durante meses lhe cobriram o rosto e faziam os amigos afastarem-se dele como se tivesse peçonha. Era vê-lo, ao finar do dia, todo tareco e embeiçado, encostado ao cruzeiro da carreira, sobre a levada, a catrapiscar a Dosanjos que chegava do mato, estafada e cansada de acariar lenha, meio escondida atrás do molho de torgas e carquejas que segurava firmemente com a travinca e o podão, fazendo força para equilibrar tudo, a custo, sobre a rodilha colorida.

O Tónio gostava verdadeiramente dela. Prospiava o dia com ela na mente , ficando até com um ar embasbacado sempre que a espreitava do calhão e a via passar, toda flausina,   sabanicar-se pela quelha a caminho da novena do mês de maio.

Ele bem lhe arrastava a asa mas…mas..

O pior de tudo era mesmo a mãe dela! Na vila, toda a gente dizia que era uma calhandrona, uma abrólio. Numa veneta de raiva, tornava-se uma grolda estiporada.Dava-lhe cada ginete nervosão que punha a língua mais afiada e venenosa que um alacrário, Saltava e torcia-se mais do que uma cobra colandrina.

 

O Tónio tinha perfeita noção disso. Certo dia, lampeiro, decidiu abrir de mansinho o pincho da a porta da palheira da Dosanjos, cuidando para não fazer barulho com as missagras enferrujadas. Armado em sonso, colocou uma sardanisca mesmo em cima da pedra onde a irmã dela cuspinhava, cuspinhava, repetidas vezes, para tentar apagar e voltar a escrever, sete vezes, a tabuada. A professora sempre avisava: quem não soubesse, levava com a menina de cinco olhos.

  

Assustada, a miúda deu um grito e atirou a pedra ao ar; a sardanisca voou e caiu sobre o naco de broa esqueixada que a mãe comia, subindo-lhe pelo braço até às goelas.

Num repente, ficou derramada; esbogalhou os olhos. Numa veneta, levantou o cuspeiro do mocho e correu atrás do Tónio com a bassoira na mão:

— Ah, camangolão, cachorro! Filho dum raio, que te faço em fanicos! Vais levar tantas, tantas, que te deixo o focinho mais amassado que uma piorra!

O Tónio, antevendo a trilha que iria levar, desceu as escaleiras a correr, atravessou sem saber como a râmbola, pulou a custo do cômbaro esbarroncado para a courela, seguiu aos pinotes piabaixo e enfiou-se direitinho numa furda do bácoro do Ti Zé de Valezim, quase deitando os bofes de fora, tremendo como varas verdes.

Só saiu à noite, depois de ter dado um valente bate-cu na pia, que o deixou enlaseirado e coberto de lavadura.

Os amigos que brincavam à risca assorriaram-no ao verem que o Tónio ainda levava na cabeça uns pendericos de batatas, gritando: “ió, ió… lá o leva.”

O pai da Dosanjos era um paz de alma; era manco, mas andava sempre todo enchicharrado. Com uns copos, contava que tinha sido um lobo malhadiço, no Surgaçal, que lhe fincou os dentes numa perna. Passava agora os dias junto à taberna do Cristóvão, bebendo copos de três e peteirando, ficando ali à tronca-maronca com os costumeiros frequentadores.

 

Fim da parte II

Continua…..

  Autor: José Manuel Alves

 

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