segunda-feira, 29 de dezembro de 2025

 

A HISTÓRIO DO TOINO   EM LORIGUÊS   PARTE III

  

Era domingo.

A azáfama das flausinas, todas apilaradas e empertigadas, sabanicando-se à surrapa para exibirem, lampeiras, as novas saias de terylene, enchiam o adro de cor enquanto aguardavam o princípio da missa.

Junto à fonte, alguns pirralhos arremelgados, mal enjabardados, com os pés cheios de borregas e restos de caldo verde nas camisolas, faziam um tal escarchéu, brincando, atirando bagos de uvas esbaguchados e caganátias de coelho à cabeça de quem passava, até que o sacristão os ameaçou com uma trolitada, caso continuassem com aquele desaforo junto à sacristia.

A chuva molha-tolos transformou-se em beirolas grossas, que levou os mais cuidadosos a acoitarem-se nos beirais, agarimando-se do vento e do frio.

A missa já ia no Credo quando o Toino, todo anafiado, entrou pela porta do fundo, por baixo do coro. Olhou para o altar, pessinou-se e, num repente, foi quase empoleirar-se na pia da água benta, vasculhando com o olhar a catrefada de gente de cabeça coberta com véus e xailes pretos, que enchia toda a igreja, na esperança de encontrar a sua amada Dosanjos.

Quando a avistou, endireitou-se, todo ancho, deu uma cuspinhadela na mão e ajeitou a gadelha.

Fez um ar de encagaitado, importante, como se fosse o senhor doutor da mula ruça.

A rapariga estava junto à escada do púlpito, tagarelando baixinho com a prima Maria do Céu, que tinha fama de bonrrona e era falada por toda a vila por ter sido encontrada na quelha do rato, feita lesma, a dar canchas por cima do Carlitos, que estava deitado no chão, embasbacado, com ar de quem estava a gostar de espreitar gambuzinos.

Conta a finada tia Maria do Carmo, que Deus a tenha em lugar de descanso, que um dia, quando estava no Teixeiro a estender a roupa para corar, a viu passar com uma abada de cerejas no vestido, de tal modo levantado, que levou as mãos à cabeça e disse-lhe: — Nossa Senhora do Carmo! Credo! Rapariga! Daqui a nada ainda acabas por mostrar as trelecas. Sabem o que a migengra mocotó respondeu? — Olha, velha! Quero lá saber! O que é bom é para se ver!

Finalmente, o olhar meio esgaziado do Toino cruzou-se com o da sua amada. Até parece que a igreja tremeu, como se uma faísca os apanhasse no meio do mato.

A missa acabou. Sem que tivessem combinado, esperaram que todo o povo saísse. Já cá  fora, aproximou-se então, o Toino e ofereceu-se para a acoitar no chapéu.

Enquanto seguiam rua abaixo, na cabeça da Dosanjos zeniam ainda as palavras da mãe no dia anterior, quando, em conversa ligeira, a pobre rapariga se referiu ao Toino. Como mordida por um alacrário, a mãe levantou-se, olhou-a com olhos de teirão e gritou: — Dosanjos, tu não me teziques! (e ainda mais alto) Não me teziques! Ouviste? Se te apanho a badalar com aquele incóspia, sem trambêlo, até te esgano. Juro que te dou tal uma coça que te deixo a cara feita numa bôla…

A mãe ralhava, ralhava, mas que boga, a paixão assolapada da pequena era maior que tudo.

Caminho fora, perto da quelha escura, o Toino, que nem raposa matreira, esperava aboletar-se a uns abracitos, tentando encostar-se e pôr a mão aos ombros dela. A pobrezita, assustada, dizia com ar de arrenegada: — Toino! Poi-te quêdo! Sabes bem como são as pessoas daqui! Gostam de escrafunchar e meter o bedelho na vida dos outros, amanhã até o senhor padre já vai saber. — Restava-se depois com um ar embaçado, disfarçando bem a alegria de estar ao lado dele.

Na verdade, deserta estava ela de abraçar aquele alvadiço destrambelhado, com cara de anjo endemoinhado.

Continua…

Autor: José Manuel Alves

 

 

 

 

 

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