segunda-feira, 26 de janeiro de 2026

 

                       MARCHA DE SACAVÉM     ano 2025

                                                       tema -  SACAVÉM É OUTRA LOIÇA          

                                                                                   I

Não importa de onde vimos

Seja qual for o lugar

Honrando o nosso concelho

Sacavém e Prior velho

Juntos na rua a dançar.

    II

Tens o Trancão a teus pés

Tens o Tejo sem idade

Que te enchem de beleza

Sacavém és com certeza

A mais bonita cidade

Rrefrão I 

        Juntem-se a nós                                                                       Juntem-se a nós

        No convívio e na amizade                                                       Com manjerico e balão

                  Um “VIVA A NOSSA CIDADE”                                            Santo António e São João

        Que encanta o nosso olhar                                                       São foliões populares

        Ergam as vozes                                                                         Cantem bem alto

        Ser feliz é uma virtude                                                              P’ra que todo o mundo oiça

        E a senhora da Saúde                                                                 Sacavém vai a passar

        Já nos veio abençoar                                                                  Sacavém é outra loiça

                                                                         Refrão  II                           


                                         Vens de longe do passado


                                              Na arte és pioneira

   A tua gente bondosa

  Fez a Loiça tão famosa

Que brilhou na terra inteira

                                                            Instrumental    Refrão  I

                                                              Vozes Refrão I  e II

                                   III                                                                    iV

Naqueles fornos velhinhos                                 A requintada faiança                  

Museu de recordações                                         De pura argila “Caulino”                         

Histórias de gente nobre                                      Com desenhos a rigor                         

Artesãos e gente pobre                                        Plenos de harmonia e  cor                          

 

Que conquistou gerações                                     Desenhada a traço fino

                                  Instrumental    Refrão  I

                                                            Vozes Refrão I  e II

                                     V                                                                     VI

Nos azulejos velhinhos                                      Essa Fábrica Velhinha             

Expostos na pedra dura                                      Ficou escrita no tempo                                  

Por trabalhadores prendados                              O povo não a esquece

Que deixaram estampados                                  A memória permanece

O saber e a arte pura                                           Vive aqui, neste momento

   

                                                               Instrumental    Refrão  I

                                                                 Vozes Refrão I  e II

                                  VII                                                                      VIII

Não importa de onde vimos                             Não importa de onde vimos

Seja daqui ou d além                                         Aqui é o nosso lar

Rapazes e raparigas                                           Honrando o nosso concelho                

Entoam suas cantigas                                         Sacavém e Prior Velho                 

Na marcha de Sacavém                                      Juntos na rua a marchar

 

Autor música e letra:

José Manuel Alves

 

domingo, 4 de janeiro de 2026

                          


                                                   CANÇÃO DE EMBALAR DA NOA

 

Já é noitinha

Já há luar

A mommy canta

Canções de embalar

 

Mil passarinhos

Quiseram vir

Junto da Noa

P´ra vê-la dormir

 

Mil felicidades

Vais ter ainda

És a menina mais linda

 

Que o teu destino

Seja de amor

Entre caminhos em flor

 

Ó-ó-ó   ó-ó-ó

Ó-ó-ó-ó-ó-ó

Hum hum hum hum

Hum hum hum hum

Hum hum hum hum

Auotor: José Manuel Alves 

quinta-feira, 1 de janeiro de 2026

                              

                         Janeiras - Mantendo as tradições


                     


quarta-feira, 31 de dezembro de 2025


Entrevista do jornal Garganta de Loriga





            Compositor, letrista, animador musical, mentor e maestro do grupo “Chão da Ribeira., não sendo a música a sua principal atividade, de onde lhe vem tanta energia?

 Cada um destes papéis tem exigido de mim uma entrega constante e tem contribuído para incentivar o meu desejo contínuo de ir mais além, usando temas do dia a dia, ou o historial de vivências acumuladas ao longo dos anos e que alimentam a inspiração e expressão que coloco nas letras ou nas melodias que escrevo.

Através desta dedicação e paixão, não apenas crio a música e a poesia para mim próprio como a reparto com os meus amigos que comigo ampliam os horizontes culturais da nossa comunidade da Analor e que integram o grupo Chão da Ribeira

 A música, em todas as suas formas, continua a ser para mim uma força poderosa de conexão e transformação, que me acompanharão sempre.

A inspiração pode vir de qualquer lugar: uma caminhada pela natureza, uma experiência pessoal ou mesmo uma conversa casual. O processo criativo varia consoante o tema , mas geralmente começa com uma ideia ou tema central que é desenvolvido através da experimentação e da improvisação. À medida que a composição toma forma, vou revisando e ajustando as partes até que o trabalho esteja completo.

Além disso, o apoio contínuo e o incentivo dos meus amigos são catalisadores essenciais. Saber que as minhas músicas e letras tocam os corações dos meus conterrâneos e que conseguem uni-los a cantar os refrões, dá-me uma força extraordinária. É este sentimento de pertença e de partilha que me dá a energia para continuar a explorar, a compor e a celebrar Loriga de todas as maneiras possíveis.

Fale-nos um pouco da sua vinda para Sacavém, e o que isso significou para si

A transição de uma vila para uma cidade foi, sem dúvida, um marco significativo na minha vida. Saí de um lugar onde todos se conheciam, do seio de uma família numerosa onde a alegria e a felicidade ímpar, era sobejamente repartida entre todos. Com apenas 10 anos, já estava um pouco entregue a mim próprio num seminário, interno, num ambiente de regras rígidas e disciplinadas. Este contraste, porém, esta mudança radical, trouxe-me uma visão mais alargada do mundo, com experiências e conhecimentos que enriqueceram e viriam no futuro a moldar a minha personalidade.

Na aldeia, aprendemos a valorizar a simplicidade e a profundidade das relações humanas; chegado à cidade, descobri a diversidade e a complexidade das mirabolantes histórias de vida de cada pessoa que se cruzou ou simplesmente tangenciou o meu caminho. Este encontro de mundos reflete-se nas minhas composições, onde tento capturar, preferencialmente a essência fascinante da tranquilidade rural. Cada melodia, cada letra é uma fusão destes universos, Loriga e Sacavém, numa tentativa de harmonizar o velho com o novo, o familiar com o desconhecido.

Adaptar-me à vida citadina exigiu de mim uma abertura de espírito e uma capacidade de adaptação que não sabia possuir. A música amadureceu-me tornou-se o elo condutor que me ajudou a navegar por esta nova realidade, oferecendo-me um refúgio e, simultaneamente, um veículo de expressão e de conexão com outros.

Foi neste ambiente multifacetado que criei até agora muitos temas instrumentais e cerca de vinte temas dedicados a Loriga: “Cantar Loriga”, “O Verão e saudade” ,”As Três Fontes Gêmeas”, “O Poço da Curilha”, Bolo Negro, “O moinho do Teixeiro”, “Fonte do Mouro” . Quadras de Loriga”, “Serrana Serrana”, “Os Pastores da Minha Terra”, “Presépio de Loriga,” ,” Loriga Terra Lusitana”, ”Sonho de Natal -Janeiras”,” Hino da Analor”, “É natal é Natal” , “As raparigas da Minha Terra”, para citar apenas os meus preferidos, mais uns quantos dedicados a  Sacavém, como  seja a marcha “ Sacavém é outra Loiça”, que será o tema principal da recentemente criada Marcha de Sacavém e Prior Velho e farão a sua estreia em Junho próximo, no desfile das marchas das freguesias de Loures.

Hoje, sinto que pertenço a ambos os lugares, levando comigo as raízes da aldeia e os horizontes da cidade, numa dança contínua de inspiração e criação.

O seu amor por Loriga e pela Analor são bem evidentes na letra do Hino da Analor.

Como surgiu este poema e a música?

O hino da Analor é uma manifestação vibrante e sincera do amor e da admiração que nutro por Loriga, uma terra de beleza inigualável e rica em tradições. A conceção deste poema e música nasceu de um desejo profundo de celebrar e enaltecer as paisagens, a cultura e as pessoas que fazem de Loriga um lugar especial.

A inspiração para o hino veio de momentos passados a explorar os cantos e recantos de Loriga. Cada passeio pelas suas paisagens naturais, cada interação com os seus habitantes, e cada história ouvida sobre este lugar, foram sementes que germinaram na minha mente e no meu coração. As montanhas majestosas, as ribeiras de águas cristalinas que generosamente serpenteiam pelas colinas e encantam o nosso olhar, de braço dado com a riqueza cultural da região, proporcionaram uma fonte inesgotável de inspiração.

Com uma paisagem vibrante de beleza, associada a uma comunidade simpática e hospitaleira, a celebração de loriga e das suas gentes tornou-se um processo simples.

 Queria, igualmente, que a letra demostrasse o esforço e o empenho que a Analor e todos os seus associados fazem no sentido de divulgar por todo o lado a nossa terra, tornando-a não apenas um lugar físico a visitar, mas também um incentivo a conhecer a sua gastronomia, tradições, cultura e obras de tantos loriguenses  que se evidenciam por esse mundo fora, entre os melhores, nas diversas vertentes das artes. Ao mesmo tempo, pretendi que este tema se tornasse um apelativo a que todos companheiros e amigos de Loriga, se unissem e se juntassem à Analor fazendo o melhor pela terra que afinal é todos quantos por ela se apaixonam.

A partir desses esboços iniciais, explorei diversas melodias e ritmos. Passei horas a experimentar diferentes combinações de acordes e progressões harmónicas, procurando a sonoridade perfeita que pudesse refletir em simultâneo, força, alegria, grandiosidade e vigor. A improvisação desempenhou um papel crucial, permitindo-me descobrir nuances e detalhes que enriqueceram a composição.

Com o poema e a melodia estruturados, ajustei cada verso, cada nota e cada pausa, garantindo que tudo harmonizava perfeitamente. Partilhei a composição com amigos e colegas do grupo Coral e do Chão da Ribeira, cujo apoio e vozes foi imprescindível para a gravação.

O hino da Analor não é apenas uma obra minha; é uma celebração coletiva da comunidade. Através da música, quis criar um elo que unisse todos os que têm Loriga no coração. Cada vez que o hino é cantado ou tocado, sinto que estou a partilhar um pedaço da minha alma e a fortalecer os laços que nos unem.

Em resumo, o hino da Analor é uma ode a Loriga, nascida de um amor profundo e uma dedicação à arte da música e da poesia. É uma expressão de tudo o que Loriga representa para mim e para todos os que têm o privilégio de chamar este lugar de sua terra.

 

José Manuel Alves
 

segunda-feira, 29 de dezembro de 2025

                   A  MÚSICA E EU 







 

A HISTÓRIO DO TOINO   EM LORIGUÊS   PARTE III

  

Era domingo.

A azáfama das flausinas, todas apilaradas e empertigadas, sabanicando-se à surrapa para exibirem, lampeiras, as novas saias de terylene, enchiam o adro de cor enquanto aguardavam o princípio da missa.

Junto à fonte, alguns pirralhos arremelgados, mal enjabardados, com os pés cheios de borregas e restos de caldo verde nas camisolas, faziam um tal escarchéu, brincando, atirando bagos de uvas esbaguchados e caganátias de coelho à cabeça de quem passava, até que o sacristão os ameaçou com uma trolitada, caso continuassem com aquele desaforo junto à sacristia.

A chuva molha-tolos transformou-se em beirolas grossas, que levou os mais cuidadosos a acoitarem-se nos beirais, agarimando-se do vento e do frio.

A missa já ia no Credo quando o Toino, todo anafiado, entrou pela porta do fundo, por baixo do coro. Olhou para o altar, pessinou-se e, num repente, foi quase empoleirar-se na pia da água benta, vasculhando com o olhar a catrefada de gente de cabeça coberta com véus e xailes pretos, que enchia toda a igreja, na esperança de encontrar a sua amada Dosanjos.

Quando a avistou, endireitou-se, todo ancho, deu uma cuspinhadela na mão e ajeitou a gadelha.

Fez um ar de encagaitado, importante, como se fosse o senhor doutor da mula ruça.

A rapariga estava junto à escada do púlpito, tagarelando baixinho com a prima Maria do Céu, que tinha fama de bonrrona e era falada por toda a vila por ter sido encontrada na quelha do rato, feita lesma, a dar canchas por cima do Carlitos, que estava deitado no chão, embasbacado, com ar de quem estava a gostar de espreitar gambuzinos.

Conta a finada tia Maria do Carmo, que Deus a tenha em lugar de descanso, que um dia, quando estava no Teixeiro a estender a roupa para corar, a viu passar com uma abada de cerejas no vestido, de tal modo levantado, que levou as mãos à cabeça e disse-lhe: — Nossa Senhora do Carmo! Credo! Rapariga! Daqui a nada ainda acabas por mostrar as trelecas. Sabem o que a migengra mocotó respondeu? — Olha, velha! Quero lá saber! O que é bom é para se ver!

Finalmente, o olhar meio esgaziado do Toino cruzou-se com o da sua amada. Até parece que a igreja tremeu, como se uma faísca os apanhasse no meio do mato.

A missa acabou. Sem que tivessem combinado, esperaram que todo o povo saísse. Já cá  fora, aproximou-se então, o Toino e ofereceu-se para a acoitar no chapéu.

Enquanto seguiam rua abaixo, na cabeça da Dosanjos zeniam ainda as palavras da mãe no dia anterior, quando, em conversa ligeira, a pobre rapariga se referiu ao Toino. Como mordida por um alacrário, a mãe levantou-se, olhou-a com olhos de teirão e gritou: — Dosanjos, tu não me teziques! (e ainda mais alto) Não me teziques! Ouviste? Se te apanho a badalar com aquele incóspia, sem trambêlo, até te esgano. Juro que te dou tal uma coça que te deixo a cara feita numa bôla…

A mãe ralhava, ralhava, mas que boga, a paixão assolapada da pequena era maior que tudo.

Caminho fora, perto da quelha escura, o Toino, que nem raposa matreira, esperava aboletar-se a uns abracitos, tentando encostar-se e pôr a mão aos ombros dela. A pobrezita, assustada, dizia com ar de arrenegada: — Toino! Poi-te quêdo! Sabes bem como são as pessoas daqui! Gostam de escrafunchar e meter o bedelho na vida dos outros, amanhã até o senhor padre já vai saber. — Restava-se depois com um ar embaçado, disfarçando bem a alegria de estar ao lado dele.

Na verdade, deserta estava ela de abraçar aquele alvadiço destrambelhado, com cara de anjo endemoinhado.

Continua…

Autor: José Manuel Alves

 

 

 

 

 

 

A HISTÓRIA do TOINO EM LORIGUÊS      PARTE  II 

 

O Tonio cresceu. Era agora um rapaz bonito e escorreito, livre das bostelas que durante meses lhe cobriram o rosto e faziam os amigos afastarem-se dele como se tivesse peçonha. Era vê-lo, ao finar do dia, todo tareco e embeiçado, encostado ao cruzeiro da carreira, sobre a levada, a catrapiscar a Dosanjos que chegava do mato, estafada e cansada de acariar lenha, meio escondida atrás do molho de torgas e carquejas que segurava firmemente com a travinca e o podão, fazendo força para equilibrar tudo, a custo, sobre a rodilha colorida.

O Tónio gostava verdadeiramente dela. Prospiava o dia com ela na mente , ficando até com um ar embasbacado sempre que a espreitava do calhão e a via passar, toda flausina,   sabanicar-se pela quelha a caminho da novena do mês de maio.

Ele bem lhe arrastava a asa mas…mas..

O pior de tudo era mesmo a mãe dela! Na vila, toda a gente dizia que era uma calhandrona, uma abrólio. Numa veneta de raiva, tornava-se uma grolda estiporada.Dava-lhe cada ginete nervosão que punha a língua mais afiada e venenosa que um alacrário, Saltava e torcia-se mais do que uma cobra colandrina.

 

O Tónio tinha perfeita noção disso. Certo dia, lampeiro, decidiu abrir de mansinho o pincho da a porta da palheira da Dosanjos, cuidando para não fazer barulho com as missagras enferrujadas. Armado em sonso, colocou uma sardanisca mesmo em cima da pedra onde a irmã dela cuspinhava, cuspinhava, repetidas vezes, para tentar apagar e voltar a escrever, sete vezes, a tabuada. A professora sempre avisava: quem não soubesse, levava com a menina de cinco olhos.

  

Assustada, a miúda deu um grito e atirou a pedra ao ar; a sardanisca voou e caiu sobre o naco de broa esqueixada que a mãe comia, subindo-lhe pelo braço até às goelas.

Num repente, ficou derramada; esbogalhou os olhos. Numa veneta, levantou o cuspeiro do mocho e correu atrás do Tónio com a bassoira na mão:

— Ah, camangolão, cachorro! Filho dum raio, que te faço em fanicos! Vais levar tantas, tantas, que te deixo o focinho mais amassado que uma piorra!

O Tónio, antevendo a trilha que iria levar, desceu as escaleiras a correr, atravessou sem saber como a râmbola, pulou a custo do cômbaro esbarroncado para a courela, seguiu aos pinotes piabaixo e enfiou-se direitinho numa furda do bácoro do Ti Zé de Valezim, quase deitando os bofes de fora, tremendo como varas verdes.

Só saiu à noite, depois de ter dado um valente bate-cu na pia, que o deixou enlaseirado e coberto de lavadura.

Os amigos que brincavam à risca assorriaram-no ao verem que o Tónio ainda levava na cabeça uns pendericos de batatas, gritando: “ió, ió… lá o leva.”

O pai da Dosanjos era um paz de alma; era manco, mas andava sempre todo enchicharrado. Com uns copos, contava que tinha sido um lobo malhadiço, no Surgaçal, que lhe fincou os dentes numa perna. Passava agora os dias junto à taberna do Cristóvão, bebendo copos de três e peteirando, ficando ali à tronca-maronca com os costumeiros frequentadores.

 

Fim da parte II

Continua…..

  Autor: José Manuel Alves