quarta-feira, 31 de dezembro de 2025


Entrevista do jornal Garganta de Loriga





            Compositor, letrista, animador musical, mentor e maestro do grupo “Chão da Ribeira., não sendo a música a sua principal atividade, de onde lhe vem tanta energia?

 Cada um destes papéis tem exigido de mim uma entrega constante e tem contribuído para incentivar o meu desejo contínuo de ir mais além, usando temas do dia a dia, ou o historial de vivências acumuladas ao longo dos anos e que alimentam a inspiração e expressão que coloco nas letras ou nas melodias que escrevo.

Através desta dedicação e paixão, não apenas crio a música e a poesia para mim próprio como a reparto com os meus amigos que comigo ampliam os horizontes culturais da nossa comunidade da Analor e que integram o grupo Chão da Ribeira

 A música, em todas as suas formas, continua a ser para mim uma força poderosa de conexão e transformação, que me acompanharão sempre.

A inspiração pode vir de qualquer lugar: uma caminhada pela natureza, uma experiência pessoal ou mesmo uma conversa casual. O processo criativo varia consoante o tema , mas geralmente começa com uma ideia ou tema central que é desenvolvido através da experimentação e da improvisação. À medida que a composição toma forma, vou revisando e ajustando as partes até que o trabalho esteja completo.

Além disso, o apoio contínuo e o incentivo dos meus amigos são catalisadores essenciais. Saber que as minhas músicas e letras tocam os corações dos meus conterrâneos e que conseguem uni-los a cantar os refrões, dá-me uma força extraordinária. É este sentimento de pertença e de partilha que me dá a energia para continuar a explorar, a compor e a celebrar Loriga de todas as maneiras possíveis.

Fale-nos um pouco da sua vinda para Sacavém, e o que isso significou para si

A transição de uma vila para uma cidade foi, sem dúvida, um marco significativo na minha vida. Saí de um lugar onde todos se conheciam, do seio de uma família numerosa onde a alegria e a felicidade ímpar, era sobejamente repartida entre todos. Com apenas 10 anos, já estava um pouco entregue a mim próprio num seminário, interno, num ambiente de regras rígidas e disciplinadas. Este contraste, porém, esta mudança radical, trouxe-me uma visão mais alargada do mundo, com experiências e conhecimentos que enriqueceram e viriam no futuro a moldar a minha personalidade.

Na aldeia, aprendemos a valorizar a simplicidade e a profundidade das relações humanas; chegado à cidade, descobri a diversidade e a complexidade das mirabolantes histórias de vida de cada pessoa que se cruzou ou simplesmente tangenciou o meu caminho. Este encontro de mundos reflete-se nas minhas composições, onde tento capturar, preferencialmente a essência fascinante da tranquilidade rural. Cada melodia, cada letra é uma fusão destes universos, Loriga e Sacavém, numa tentativa de harmonizar o velho com o novo, o familiar com o desconhecido.

Adaptar-me à vida citadina exigiu de mim uma abertura de espírito e uma capacidade de adaptação que não sabia possuir. A música amadureceu-me tornou-se o elo condutor que me ajudou a navegar por esta nova realidade, oferecendo-me um refúgio e, simultaneamente, um veículo de expressão e de conexão com outros.

Foi neste ambiente multifacetado que criei até agora muitos temas instrumentais e cerca de vinte temas dedicados a Loriga: “Cantar Loriga”, “O Verão e saudade” ,”As Três Fontes Gêmeas”, “O Poço da Curilha”, Bolo Negro, “O moinho do Teixeiro”, “Fonte do Mouro” . Quadras de Loriga”, “Serrana Serrana”, “Os Pastores da Minha Terra”, “Presépio de Loriga,” ,” Loriga Terra Lusitana”, ”Sonho de Natal -Janeiras”,” Hino da Analor”, “É natal é Natal” , “As raparigas da Minha Terra”, para citar apenas os meus preferidos, mais uns quantos dedicados a  Sacavém, como  seja a marcha “ Sacavém é outra Loiça”, que será o tema principal da recentemente criada Marcha de Sacavém e Prior Velho e farão a sua estreia em Junho próximo, no desfile das marchas das freguesias de Loures.

Hoje, sinto que pertenço a ambos os lugares, levando comigo as raízes da aldeia e os horizontes da cidade, numa dança contínua de inspiração e criação.

O seu amor por Loriga e pela Analor são bem evidentes na letra do Hino da Analor.

Como surgiu este poema e a música?

O hino da Analor é uma manifestação vibrante e sincera do amor e da admiração que nutro por Loriga, uma terra de beleza inigualável e rica em tradições. A conceção deste poema e música nasceu de um desejo profundo de celebrar e enaltecer as paisagens, a cultura e as pessoas que fazem de Loriga um lugar especial.

A inspiração para o hino veio de momentos passados a explorar os cantos e recantos de Loriga. Cada passeio pelas suas paisagens naturais, cada interação com os seus habitantes, e cada história ouvida sobre este lugar, foram sementes que germinaram na minha mente e no meu coração. As montanhas majestosas, as ribeiras de águas cristalinas que generosamente serpenteiam pelas colinas e encantam o nosso olhar, de braço dado com a riqueza cultural da região, proporcionaram uma fonte inesgotável de inspiração.

Com uma paisagem vibrante de beleza, associada a uma comunidade simpática e hospitaleira, a celebração de loriga e das suas gentes tornou-se um processo simples.

 Queria, igualmente, que a letra demostrasse o esforço e o empenho que a Analor e todos os seus associados fazem no sentido de divulgar por todo o lado a nossa terra, tornando-a não apenas um lugar físico a visitar, mas também um incentivo a conhecer a sua gastronomia, tradições, cultura e obras de tantos loriguenses  que se evidenciam por esse mundo fora, entre os melhores, nas diversas vertentes das artes. Ao mesmo tempo, pretendi que este tema se tornasse um apelativo a que todos companheiros e amigos de Loriga, se unissem e se juntassem à Analor fazendo o melhor pela terra que afinal é todos quantos por ela se apaixonam.

A partir desses esboços iniciais, explorei diversas melodias e ritmos. Passei horas a experimentar diferentes combinações de acordes e progressões harmónicas, procurando a sonoridade perfeita que pudesse refletir em simultâneo, força, alegria, grandiosidade e vigor. A improvisação desempenhou um papel crucial, permitindo-me descobrir nuances e detalhes que enriqueceram a composição.

Com o poema e a melodia estruturados, ajustei cada verso, cada nota e cada pausa, garantindo que tudo harmonizava perfeitamente. Partilhei a composição com amigos e colegas do grupo Coral e do Chão da Ribeira, cujo apoio e vozes foi imprescindível para a gravação.

O hino da Analor não é apenas uma obra minha; é uma celebração coletiva da comunidade. Através da música, quis criar um elo que unisse todos os que têm Loriga no coração. Cada vez que o hino é cantado ou tocado, sinto que estou a partilhar um pedaço da minha alma e a fortalecer os laços que nos unem.

Em resumo, o hino da Analor é uma ode a Loriga, nascida de um amor profundo e uma dedicação à arte da música e da poesia. É uma expressão de tudo o que Loriga representa para mim e para todos os que têm o privilégio de chamar este lugar de sua terra.

 

José Manuel Alves
 

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