sábado, 10 de novembro de 2012

LISBOA E EU

LISBOA   E EU

Apenas o eléctrico violando de cor a rua vazia.
Um velho senhor guinchando nos trilhos
Indiferente e vaidoso
Com destino a algures perto do Rossio
No acordar da manhã pachorrenta e entediante.

Sento-me! Vazio de ideias
Olhar perdido na Avenida
Observando o paralelismo
Das linhas de desenho lógico
Alongadas na calçada polida.

Ao fundo o Tejo preguiçoso
De águas pachorrentas
Aqui e ali riscadas pelas gaivotas
Em voos obtusos
Em direcção ao mar.

Depois..
Só Lisboa e eu
Vazio de ideias.

Autor: José Manuel Alves

quinta-feira, 1 de novembro de 2012

CAIS DOS AVIEIROS



O CAIS SAUDADE

Cada estaca é uma história      
Cada história é uma lida
Cada lida é uma vitória
Cada vitória uma vida

Cada tronco é uma saudade
Cada saudade é partida
Cada partida é maldade
Cada adeus é despedida

Cada tábua é um soalho
Cada soalho um caminho
Cada caminho um atalho
Cada atalho é um espinho

Cada corda é um cansaço
Cada cansaço um gemido
Cada  gemido um abraço
Cada abraço um sentido

Cada cais é uma lembrança
Cada lembrança uma dor
Cada dor é uma esperança
Cada esperança um amor.

Autor:José  Manuel Alves

sábado, 27 de outubro de 2012

ESPANTALHO


ESPANTALHO

Na escola da  minha rua
Há  um espantalho
Simpático e risonho
Com coração de palha

Mascarado de realidade
É tolerante e compassivo
Afasta os  corvos afoitos
Com melodias de improviso
Quando o vento agita
Os seus dedos de palha
Nas cordas da guitarra.


Na palidez da verdade
Só o espantalho se espanta
Entediado de pasmaceira
Estático e mudo de sol a sol
Na esperanças que algum pardal
Vadio e afoito
Faça o ninho nos seus cabelos eriçados 
  

Poucos reparam no espantalho
E a vida acontece em correria
Indiferente às lágrimas
Que o orvalho verte
No seu rosto de pano velho.

Por vezes
Quedo-me mudo
Tentando adivinhar o silêncio
Do seu sorriso
E ouvir o improviso mágico das melodias
Dedilhadas pelos seus dedos de palha
Agitados pelo vento.

Autor: José Manuel Alves



quinta-feira, 25 de outubro de 2012

PASSADO NO PRESENTE



PASSADO NO PRESENTE

Dúbias lembranças
Quando  a cegueira dos sonhos
Aflige  a sanidade da razão.

Pouco importa
Se o véu coberto de pó tinge de penas
O sorriso sarcástico desenhado a fogo
No renascer da esquina.

Cativamos no presente 
Imagens que trouxemos dos confins do tempo
Avidamente amealhadas num olhar cansado
Emergindo dum perpétuo fulgor
Como um vulto errando a esmo
No vendaval da memória que persiste
Em mesclar-se de sombras vadias.

Saudade é o inferno do que perdemos
Coração esvaziado, lábios amargos
Como pétalas caindo das gáveas
Devagar
Restando-se à tona dos sentidos.

Atiramos à fogueira o passado
Como roupa usada
Mas nunca certificamos as cinzas
Para confirmar se ardeu
Até que o clarim soa
E o comboio das recordações nos atropela.


Autor: José Manuel Alves

domingo, 21 de outubro de 2012

Caminhos da Amoreira



CAMINHO DE LUZ

Esta interminável aventura
Este incomensurável caminhar 
Estes rios de ilusões perdidas
Esta vontade firme de lavrar
Na tua boca seca de loucura
 Ânsias e amores a despertar

Vem companheira passo a passo
O sol Não queima, é apenas o Luar  
Esta luz é o ópio que entontece
No caminho há destinos a editar
Cerra os dentes no fogo que te aquece
Vê na lonjura novo dia a clarear.

Autor
José Manuel Alves

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

NA NEBLINA




MEU TEJO

Meu Tejo, meu amigo, meu regalo
Livro aberto de Histórias e viagens
Teu destino é morrer no oceano
O meu, é viver nas tuas margens

Tejo de maravilhas e de encantos
Como pontes serpenteando sobre as águas
Espreitar-te, è seduzir-me de espanto
Navegar-te, è esquecer tudo, até as mágoas

Espraiado nos pés desta Lisboa
Dormes o merecido sono dos marinheiros
Que de ti partiram e foram os primeiros
A descobrir outros mundos, gente boa

Quando as marés regressam das viagens
Trazem escritas saudades dos que se foram
Que de longe não esqueceram onde moram
Os que ficaram habitando as tuas margens.

Autor 
José Manuel Alves