quinta-feira, 25 de outubro de 2012

PASSADO NO PRESENTE



PASSADO NO PRESENTE

Dúbias lembranças
Quando  a cegueira dos sonhos
Aflige  a sanidade da razão.

Pouco importa
Se o véu coberto de pó tinge de penas
O sorriso sarcástico desenhado a fogo
No renascer da esquina.

Cativamos no presente 
Imagens que trouxemos dos confins do tempo
Avidamente amealhadas num olhar cansado
Emergindo dum perpétuo fulgor
Como um vulto errando a esmo
No vendaval da memória que persiste
Em mesclar-se de sombras vadias.

Saudade é o inferno do que perdemos
Coração esvaziado, lábios amargos
Como pétalas caindo das gáveas
Devagar
Restando-se à tona dos sentidos.

Atiramos à fogueira o passado
Como roupa usada
Mas nunca certificamos as cinzas
Para confirmar se ardeu
Até que o clarim soa
E o comboio das recordações nos atropela.


Autor: José Manuel Alves

domingo, 21 de outubro de 2012

Caminhos da Amoreira



CAMINHO DE LUZ

Esta interminável aventura
Este incomensurável caminhar 
Estes rios de ilusões perdidas
Esta vontade firme de lavrar
Na tua boca seca de loucura
 Ânsias e amores a despertar

Vem companheira passo a passo
O sol Não queima, é apenas o Luar  
Esta luz é o ópio que entontece
No caminho há destinos a editar
Cerra os dentes no fogo que te aquece
Vê na lonjura novo dia a clarear.

Autor
José Manuel Alves

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

NA NEBLINA




MEU TEJO

Meu Tejo, meu amigo, meu regalo
Livro aberto de Histórias e viagens
Teu destino é morrer no oceano
O meu, é viver nas tuas margens

Tejo de maravilhas e de encantos
Como pontes serpenteando sobre as águas
Espreitar-te, è seduzir-me de espanto
Navegar-te, è esquecer tudo, até as mágoas

Espraiado nos pés desta Lisboa
Dormes o merecido sono dos marinheiros
Que de ti partiram e foram os primeiros
A descobrir outros mundos, gente boa

Quando as marés regressam das viagens
Trazem escritas saudades dos que se foram
Que de longe não esqueceram onde moram
Os que ficaram habitando as tuas margens.

Autor 
José Manuel Alves




sábado, 6 de outubro de 2012

ARRIFANA


Arrifana - Aljezur

FOZ DO TRANCÃO





 A PAISAGEM DUM SONHO

Como um rio adormecido
No abandono das marés idas
Sento-me e descanso
Nesta paisagem de beleza adivinhada.

Em tempos… imaginei o mar
Na ambição das minhas janelas.
 Um navio de sonhos!
 Velas de pensamentos!
Navegar à bolina ao sabor do acaso
 Nas linhas sinuosas e irreverentes
Duma juventude de destinos por editar.

Sulquei mundos de solidão
Onde se escreve saudade com palavras mordidas
Ali! onde as esperanças anoitecem em cada madrugada
E as mãos se retorcem ansiosas
Numa espera torturada.

Pela madrugada, quis voltar
Às saudades da paisagem do meu Tejo
Ancorado num azulejo de beleza adivinhada
Numa passividade arrepiante
Contando as horas
Até ao novo ressuscitar das marés

Autor: José Manuel Alves


sexta-feira, 21 de setembro de 2012

A CATEDRAL



A CATEDRAL

Avivam-se as cores da Igreja no meu olhar
Cada postigo acende-se com o sol esgueirando-se pelos vitrais.

Enchem-se os ouvidos com os sons das ladainhas
Dies irae …dies illa…
Arrepiando de penumbra as luzes esmorecidas
Que cavalgam em carrocel as abobadas do teto.

Deslizo o olhar nas linhas de esplendor
Unidas ao alto como mãos fervorosas
Em contrições arrependidas
Tingidas de nevoeiro de incensos fumegantes
De odores intensos e adocicados.

Como um prumo
Cai ao centro o candelabro
Espreitando as telas de cores generosas e quentes
Em remoinho pelas paredes e ogivas
Atravessadas por cruzes carregadas de penitências.

Baixo o olhar até ao chão
Sento-me calado em pensamentos 
Em recolhido silêncio Embalado nas palavras
Que do coro se soltam como borboletas agoirentas.
Dias de ira, aqueles dias.

Autor
José Manuel Alves