sábado, 28 de julho de 2012

SOMBRAS



SOMBRAS

Sombras são pedaços de nós
Fantasmas que nos seguem
Como demónios apaixonados
Rastejando ousados pelas ruas
Subindo e descendo como loucos
As paredes e os muros dos caminhos


Prendem-se silenciosas
À cadência dos nossos passos
E sem cansaços, elas são
O nosso eu bizarro
Em desgarro
tingido de escuridão.

Espreitam-nos na madrugada
Ou na ensolarada tarde.
Sem alarde, avivam-se no luar
E no passar, enredam-se na luz
Que as ressuscita e seduz
Como maldições ao nosso olhar.

Sombras são pedaços de nós
Fantasmas vivos
Sem alma e sem razão
Obcecados e perdidos
Perseguem-nos, famintas
Arrastando-se no chão.

Autor
José Manuel Alves






segunda-feira, 23 de julho de 2012

É sempre madrugada




É SEMPRE MADRUGADA

É sempre Madrugada
Quando falamos de amor
Como uma flor desabrochando
Num corpo de segredo

È sempre madrugada
Quando o dia acorda
No soluçar da voz
De mágoas riscadas
À flor da pele

Desprendem-se do ar as letras
Com que escrevemos saudade
Num curto lampejo
Quando os teus olhos
Me golpeiam de tentações
E se perdem na bruma

O amanhecer
É um silêncio magoado
Entre os abraços fugidios
E os beijos fortuitos dos amantes
Emparedados na incerteza do tempo
Bolsos vazios de ilusões

O amanhecer
É como uma esmola feiticeira
Avidamente guardada à cautela
Sempre que falamos de amor
E nos perdemos em delírios
Num corpo de segredo.

Foto e poesia: José Manuel Alves

terça-feira, 10 de julho de 2012

quarta-feira, 4 de julho de 2012

SOCALCOS



SOCALCOS


Socalcos são répteis em desvario
Serpenteando em magia pelas encostas
Perseguidos em serena cadência
Por combâros e levadas.

Socalcos são sobressaltos de palavras
Tronos de realeza, ousadias de génios
Berços esculpidos na inclinação apressada dos montes
De formas vadias
Vertiginosamente escorregando até às ribeiras.

Socalcos são  as rugas  dos gentios
Palcos  de insónias perdidas no tempo
Gritos de enxadas abrindo a rigor os torrões
O berço
Onde germinarão  ansiosas
As espigas de milho e do centeio
Alouradas ao sol
Sobre as fragas inteiras das eiras
Cobertas de praganas a esvoaçar.

Socalcos são escadas de nobreza
A finura do traço, intervalos de beleza
O perfeito soluçar  da serra
Ardilosamente rasgada
Num desafio inventivo ao pensamento
Que no momento nos faz sonhar
E acreditar que o mundo está aqui
Onde cada socalco é a força
Da minha gente em sobressalto.

Autor
José Manuel Alves



sábado, 30 de junho de 2012

CASTELO DOS MOUROS




Castelo 

Sou a memória viva do passado
Alimento de lendas os fantasmas que me habitam.
Nas pedras dos meus caminhos
Fogosos corcéis correm à toa
Arrastando no chão mantos de cetim.

Sou Filho da História
Bastardo de reis e tiranos.
Gerado entre conquistas e derrotas,
Não me vergo sob o peso dos séculos.

Semeio em cada recanto
 Versos de eternidade
Sou um jovem senhor do tempo
São meus os exércitos imemoriais
que se espalham e se escondem
Entre o granito cansado das muralhas.

Tu que entras..
Curva-te perante a realeza irrepreensível
Das minhas torres de grandeza imortal.
Eu sou a memória viva do passado
Alimento de séculos
Os fantasmas que me habitam.


photo e poesia
José Manuel Alves

terça-feira, 26 de junho de 2012

Ruínas De Uma Igreja



RUÍNAS DA IGREJA     

Quem te disse que a vida é eterna flor
Quem sobre ti escreveu eternidade
Quem te revestiu de árvores de saudade
Alguém que nunca soube o que é o amor

Crescem-te nas entranhas vivas flores
Que Na Primavera espreitam à janela
Como querendo prostrar-se na lapela
Dos que passam indiferentes às tuas dores

Quem te abandonou? Que importa?
O Inverno já espreitou a tua porta
Não é a vida um constante derrubar?

Outrora eras Igreja, eras menina  
Hoje o teu destino é a ruína
Ruindo… ruindo até tombar.

Photo e poesia
José Manuel Alves

domingo, 24 de junho de 2012

O Buraco do Tempo






 UM DIA NOS ENCONTRAMOS POR AÍ

Estáticos e mudos no adeus da separação
O atravessar de muros e destinos divergentes.
Muito ficou por dizer e por fazer
Dificilmente voltaremos a falar de poesia
De banalidades, ou fotografia
Tão pouco voltarás à minha secretária
E pedir o meu afia lápis.

Vivemos sob a alçada implacável da vida
Que desde  o tempo de escola nos rouba os amigos
E os consome no turbilhão fantástico do esquecimento.
Dificilmente voltaremos a zombar com ironia
Dos assuntos sérios, ou demagogia
Tão pouco voltarei  a buzinar ao teu aceno
Na ultrapassagem  irreverente da autoestrada.


Tangenciamos tantas vezes os nossos caminhos
Repartimos angústias, ansiedades e conquistas
Sonhamos  em conjunto a Primavera.
Dificilmente voltaremos a falar de astrologia
De carros, filmes, audácias ou até de fobia
Tão pouco voltarás  à minha secretária
Carregando novidades domingueiras

Mais uma pedra se junta no muro da separação
O começar de destinos divergentes
O pressentimento e último olhar
De alguém a ser engolido pelo tempo.

No carrocel estonteante das vontades
Quem sabe? Um dia nos encontramos por aí.

Photo e poesia: José Manuel Alves