terça-feira, 10 de abril de 2012

A MINHA RUA E EU


A MINHA RUA E EU

A minha história está nas pedras da minha rua
Escrita em cada paralelepípedo da calçada
Onde os meus pés descalços davam topetadas
Ou se entretiam  , atrevidos
A travar o ímpeto da água
Que corria apressada nos regos
Extravasando as margens.

A minha rua è longa e estreita
Na medida exata dos molhos de lenha
Cortada à força do podão
Ateada pela Padeira
No forno da esquina

A minha rua é a aceitação da infância
 Do alvorecer dos destinos por  editar
Dos miúdos que em dia de São João
Saltavam alegres sobre os tocos em chamas
Embriagados no aroma do rosmaninho queimado.

Hoje a minha rua
É silenciosa e nostálgica
Apunhalada de sombras à noitinha
Como um tição mortiço
Em vésperas de se extinguir.

A minha rua é velhinha
Tanta, tantas vezes a palmilhei
Talvez seja de todos, mas é a minha
Onde nasci e morei.

Photo e poesia. José Manuel Alves



quarta-feira, 4 de abril de 2012

CRUZEIRO DE LORIGA


CRUZEIRO DE  LORIGA
  
Diz-me por onde anda a minha gente
Os homens e mulheres da minha terra
Que ao longo dos anos contigo de cruzaram
Vindos das escarpas da serra
Carregando o peso do destino…
Vergados sob os molhos de torgas
Giestas, rachas e carquejas
Amarradas na travinca com vigor 

Quantos por ti terão passado
Como fantasmas vivos
Em sobressalto
Olhar gelado e vazio,
Manchando de negro a neve do caminho
Com pegadas tortuosas e vincadas de pó
Do  carvão ainda morno
Aos tombos
Nas velhas sacas de sarpilheira.

Quantos junto de ti suspiraram
E se apoiaram em ti
Noite cerrada, enxada às costas
Afogados no inconformismo do cansaço
De quem cavou e lavrou a terra de sol a sol
À míngua duma côdea de pão.

Quantas gerações te tocaram…
Quantos segredos as tuas pedras escutaram
Nas antigas conversas domingueiras
Quiçá, enfeitadas de sorrisos de volfrâmio
Regadas com licores e aguardente de zimbro
Misturados com os cânticos festivos
Em dias de procissão. 
Ou, quem sabe!
Ainda te consomes de insónias
Recordando o arrepiar de mãos aflitas
Quando famintas se erguiam ao alto
Buscando conforto na tua cruz.

Restas-te no tempo
Sereno e aprumado
Na simplicidade das tuas formas
Com o teu coração de granito
Vivo e generoso
Simples e  majestoso
Que te mantém acordado nos séculos
Como um guardião de lança afiada
Apontando os céus
Nas recordações generosas
Das gerações que passam
E não entendem que ao olhar-te
Contemplam a eternidade.
  
Photo e poesia: José Manuel Alves



quinta-feira, 22 de março de 2012

O TEJO E A PONTE


A PAISAGEM DUM SONHO

Como um rio adormecido

No abandono das marés idas
Sento-me e descanso
Nesta paisagem de beleza adivinhada.

Em tempos… imaginei o mar

Na ambição das minhas janelas.
Um navio de sonhos!
Velas de pensamentos!
Navegar à bolina ao sabor do acaso
Nas linhas sinuosas e irreverentes
Duma juventude de destinos por editar.

Sulquei mundos de solidão

Onde se escreve saudade com palavras mordidas
Ali! onde as esperanças anoitecem em cada madrugada
E as mãos se retorcem ansiosas
Numa espera de tortura.

Pela madrugada, quis voltar

Às saudades da paisagem do meu Tejo
Ancorado num azulejo de beleza adivinhada
Numa passividade arrepiante
Contando as horas
Até que de novo sinta
O ressuscitar das marés

Photo e poesia:

José Manuel Alves

sábado, 17 de março de 2012

SINOS



POEMA DOS SINOS

Bradam os sinos de bronze

Numa súplica de alegria.
Tinem pelas ruas adormecidas
Badaladas sonantes

Vibrantes
Em cadência pautada.

Tocam os sinos de bronze

Num tinido cristalino
Anunciando as horas
Das núpcias ou procissão
Do recolher ou da oração
Na alternância do balançar dos badalos
Ora aturdidos ora eufóricos
Repetidamente martelando o carrilhão.

Repicam os sinos de bronze

Ouvem-se de perto e de longe
Fazendo vibrar o silêncio perfumado
Das ruas cobertas de giestas e rosmaninho
Sobre o pálio festivo.
Em Dia de Ramos.





Tocam os sinos a rebate

E o povo junta-se na Praça
Com clamor, punho no ar
Erguido contra a desgraça.

Calam-se os sinos da igreja

E nasce o silêncio da paz
Das almas confortadas
No regresso ao abismo calado
Do adormecer sereno.

Pho e poesia:José MAnuel Alves